Imagine a cena: um homem de 50 e poucos anos, durante o banho, sente um pequeno caroço endurecido logo atrás do mamilo esquerdo. O primeiro pensamento, quase instintivo, é de que deve ser uma inflamação passageira ou o resultado de algum esforço físico na academia. Afinal, “homem não tem mama”, certo? Esse é o primeiro e mais perigoso mito que precisamos derrubar dentro do consultório. Embora o tecido mamário masculino seja vestigial — ou seja, não se desenvolveu para a lactação como nas mulheres —, ele existe. E onde há glândula, há possibilidade de alterações. O grande problema que enfrentamos na prática clínica é o silêncio. Por vergonha ou desconhecimento, o público masculino costuma chegar ao mastologista com quadros muito mais avançados do que as mulheres, simplesmente por não acreditarem que aquela região merece atenção.
Na maioria das vezes, o que leva o homem ao médico é a ginecomastia. Trata-se do crescimento benigno da glândula mamária, que pode causar dor, sensibilidade e um desconforto estético que abala profundamente a autoestima. Ela difere da pseudoginecomastia, que é apenas o acúmulo de gordura (comum no sobrepeso). A ginecomastia real tem causas variadas: desde o declínio natural da testosterona com o envelhecimento até o uso de medicamentos para pressão, queda de cabelo ou, muito frequentemente, o uso de esteroides anabolizantes, que desregulam completamente o eixo hormonal.
No entanto, precisamos falar sobre o 1%. Esse é o percentual de casos de câncer de mama que ocorre em homens. Parece pouco, mas para quem recebe o diagnóstico, a estatística é de 100%. Diferente das mulheres, que possuem o rastreamento por imagem (mamografia) bem estabelecido, para o homem a ferramenta principal é a autopercepção. Como o volume de tecido mamário no tórax masculino é pequeno, qualquer alteração costuma ser visível ou palpável precocemente, se houver atenção. Alguns sinais de alerta que não podem ser ignorados incluem: Presença de um nódulo endurecido, geralmente indolor, abaixo da aréola.
Saída de líquido pelo mamilo (descarga papilar), especialmente se for sanguinolento. Retração da pele ou do mamilo (quando ele começa a “entrar” ou mudar de direção). Feridas na pele da mama que não cicatrizam. Aumento de linfonodos (ínguas) na região da axila. Recentemente, atendi um paciente que chamaremos de Marcos. Ele notou uma pequena retração na pele da mama direita, mas esperou seis meses para procurar ajuda porque achava “estranho” marcar uma consulta com um especialista que atende majoritariamente mulheres. Quando finalmente realizamos a biópsia, o diagnóstico foi de carcinoma ductal. O tratamento seguiu os mesmos protocolos femininos: cirurgia, quimioterapia e hormonioterapia.
O desfecho foi positivo, mas o desgaste emocional de lutar contra um estigma de gênero durante o tratamento foi um desafio extra. A genética também desempenha um papel crucial aqui. Homens com histórico familiar forte de câncer de mama ou ovário em parentes de primeiro grau, ou que possuem mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, precisam de um acompanhamento muito mais rigoroso. O câncer de mama masculino, embora raro, tende a ser diagnosticado em idades mais avançadas, geralmente por volta dos 60 a 70 anos. O caminho para a saúde começa pela desmistificação. O mastologista não é um médico “de mulher”, mas o médico das glândulas mamárias, independentemente de quem as carrega.